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Para curar as feridas da terra

Tags: cerrado assoreamento rios wwf
 

Município ao norte de Minas Gerais cujos topos das serras foram intensamente colonizados a partir dos anos 1970, Chapada Gaúcha enfrenta hoje o desafio comum a várias regiões do Cerrado, o de associar a produção agrícola com a manutenção do solo e das águas. 
 
Figurando como um dos maiores produtores brasileiros de soja e de sementes de capim, a antiga Vila dos Gaúchos tem parte de sua paisagem dominada por imensas voçorocas*, frutos da má gestão de estradas e de práticas agrícolas nem sempre adequadas ao solo arenoso regional. Os efeitos diretos são perda de áreas produtivas, alterações forçadas em rotas de tráfego, assoreamento de rios e córregos e redução na quantidade de peixes nesses cursos d´água.
 
Conforme o engenheiro agrônomo Francisco Fernando da Silva, da Cooperativa Agropecuária Pioneira, ao longo do tempo o município vem melhorando índices de produtividade e adotando técnicas agrícolas menos agressivas, por exemplo, reduzindo as queimadas da palha que sobra a cada colheita. Mesmo assim, a degradação do solo preocupa quem depende dele para garantir o futuro na região.  “Sem cuidados a terra perderá valor. Precisamos observar e combater a degradação do solo e adequar produção e meio ambiente, inclusive para evitar restrições de crédito e de comércio”, disse. 
 
Para auxiliar o município nesse movimento, o Programa Cerrado-Pantanal do WWF-Brasil promoveu nos dias 21 e 22 de julho um curso sobre recuperação de voçorocas, na Câmara Municipal. Participaram da atividade mais de 30 pessoas, entre técnicos da prefeitura, produtores rurais, membros de organizações não-governamentais e de órgãos ambientais do estado e do governo federal. 
 
A atividade foi capitaneada pelo engenheiro agrônomo e mestre em conservação de água e solo Vinícius Martins Ferreira, do Centro Regional Integrado de Desenvolvimento Sustentável, de Nazareno (MG). Atuando há mais de uma década, o centro tem no rol de ações o Projeto Maria de Barro, focado na recuperação de áreas degradadas e apoiado com recursos do Fundo Nacional do Meio Ambiente, BNDES e Prefeitura Municipal.
 
Vinícius comenta que as erosões surgem normalmente pela disposição natural dos terrenos associada à interferência humana. Assim aconteceu em Chapada Gaúcha, cujos solos arenosos ficaram desprotegidos com o amplo desmatamento, tornando-se alvos fáceis da chuva e do vento. “Muitas vezes a população não vê risco nas erosões, mas elas não podem ser encaradas com naturalidade, pois são reflexo do trato do solo e da água nas propriedades. Por isso, o manejo e a recuperação dessas áreas começam sempre no seu entorno”, ressaltou.
 
Nos dois dias de curso, foram apresentadas técnicas para a construção de terraços, curvas de nível e pequenas barragens nas lavouras, estruturas que reduzem a força e infiltram a água das chuvas. E, ainda, para a implantação de barreiras contra o vento e para a própria recuperação das voçorocas. Uma delas foi totalmente mapeada e dimensionada. Além disso, foram apresentados aplicativos (softwares) gratuitos para cálculo do tamanho e forma de terraços e possíveis fontes de recursos públicos para redução do problema. Eles podem ser acessados aqui.
 
“Recuperar o que foi degradado é sempre mais difícil e mais caro. Por isso somos favoráveis à produção correta, que respeita e entende os limites ambientais da região”, destacou a secretária de Meio Ambiente e Turismo de Chapada Gaúcha, Rosemeire Magalhães Gobira.
 
Nativo da região, o prefeito José Raimundo Ribeiro Gomes viu muita voçoroca nascer e crescer, bem como cursos d´água assoreados pelo areal carregado a cada enxurrada. “Talvez Chapada Gaúcha seja hoje um dos maiores contribuintes com areia para o médio São Francisco, areia que o rio não precisa”, comentou. Inúmeros afluentes da margem esquerda do rio São Francisco percorrem a região, cujo modelo de ocupação, baseado no tripé trator-adubo-veneno da Revolução Verde, está nas origens da degradação. 
 
“A reação dos Gerais ao progresso não demorou. As chapadas arenosas são muito suscetíveis à erosão. Depois de desmatadas, liberaram a areia que foi carreada para entupir os cursos d´água. As veredas drenadas produziram por poucos anos. Na maioria dos casos a fertilidade declinava ao mesmo tempo em que a fonte d´agua minguava. Os cursos de água também eram sangrados pela irrigação e criação de gado em grande escala das fazendas de mata seca. Córregos, nascentes e veredas secaram”, contam professores e pesquisadores ligados ao Núcleo de Pesquisa e Apoio à Agricultura Familiar Justino Obers em artigo publicado na revista Agriculturas (confira aqui / PDF 390 Kb).
 
Com o volume do problema se agigantando, o município e governo federal vêm tentando conter algumas voçorocas desde os anos 1990, inclusive dentro do parque nacional Grande Sertão Veredas, mas de forma pontual e descontinuada. Foram erguidas barraginhas, estradas sofreram manutenção e restos orgânicos de festas populares e de moradias ganharam o fundo das grotas na tentativa de conter seu crescimento. Outras receberam lixo, fornecem areia para a cidade e servem até de curral.
 
Para o coordenador do Programa Cerrado-Pantanal do WWF-Brasil, Michael Becker, Chapada Gaúcha tem agora condições para elaborar projetos para a recuperação de voçorocas, problema que deve ser combatido de forma contínua e com a união do maior número possível de setores do município, do estado e do governo federal. Afinal, as erosões geram impactos para quem está no topo da região, para as comunidades no entorno e para a bacia do rio São Francisco, como perda de solo produtivo e redução da quantidade e da qualidade das águas.
 
“O melhor caminho é centrar esforços em torno do objetivo comum da melhoria ambiental da região, baseada na evolução contínua das técnicas produtivas e na boa e necessária convivência com o parque nacional (Grande Sertão Veredas) e outras unidades de conservação. O curso que promovemos é uma das maneiras de contribuir com esse processo”, disse.
 
* também chamadas de grotas ou boçorocas, a expressão vem do tupi-guarani ibiçoroc, literalmente “terra rasgada"
 
 
Reportagem de Aldem Bourscheit/WWF-Brasil

 

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