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Grande movimento de turistas põe em risco áreas de Porto de Galinhas
Considerada por dez vezes a melhor praia do Brasil, um dos principais destinos turísticos do país, Porto de Galinhas começa a pagar um preço alto pelo excesso de visitantes.
Tags: Porto de Galinhas Turismo Estudos
 

Considerada por dez vezes a melhor praia do Brasil, famosa pelas suas águas tépidas e cristalinas e transformada em um dos principais destinos turísticos do país, Porto de Galinhas começa a pagar um preço alto pelo excesso de visitantes. Eles chegam a um milhão por ano e entre os passeios mais disputados estão justamente as excursões aos arrecifes e às piscinas naturais, onde os banhistas se deleitam cercados de peixinhos coloridos. Seria uma diversão maravilhosa, se os ambientes recifais, como aparentam, fossem simples rochedos. Mas não é o que ocorre. Formados de algas calcáreas, corais moles e duros e recobertos de rica vegetação, integram uma cadeia que se estende por três mil quilômetros da costa brasileira e que forma várias linhas nos estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Mas é em Porto de Galinhas, no município de Ipojuca, a 64 quilômetros do Recife, que se registra a movimentação mais intensa. Este impacto começa a despertar o interesse de pesquisadores.

 

Um estudo que acaba de ser divulgado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) indicou diferenças significativas entre as áreas visitadas e as de exclusão. A autora, Visnu da Cunha Sarmento, mostrou que nas áreas não protegidas há uma redução de 55% na incidência de microcrustáceos e de 11% na variedade de espécies. Os minúsculos animais constituem importante fonte de alimentos para os peixes que vivem em ambiente recifal.
 

Estudos indicam os estragos do turismo
 
Na investigação, que virou dissertação de mestrado no Departamento de Zoologia da UFPE, Visnu comparou tanto os trechos de caminhadas sobre os arrecifes quanto os corredores de passeios de jangadas, além de áreas percorridas e protegidas. O estudo foi realizado no recife mais visitado, a cerca de 150 metros da faixa de areia e com acesso muito fácil, mesmo a pé, quando a maré está baixa. Nele, há trechos isolados por cordas e boias que vetam o acesso de turistas.
 
 
"Como os microcrustáceos vivem sobre as algas que recobrem os recifes, nosso trabalho avaliou o impacto do pisoteio na fauna e também nessa vegetação", conta.  "Além da redução no número de animais, constatamos que o pisoteio também reduziu em 52% a biomassa (quantidade) dessas algas".
Segundo o secretário de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Ipojuca, Erivelton Lacerda, a prefeitura já dispõe de 27 publicações acadêmicas indicando as consequências do turismo nos arrecifes. Ele lembrou que os estudos estão norteando iniciativas de preservação.
 
 
De acordo com um dos trabalhos sobre os impactos, a bancada recifal de Porto de Galinhas possui 260 mil metros quadrados, mas a circulação de banhistas se limita a 52 mil m², 20% de toda a área. A proporção é considerada aceitável pelos técnicos da prefeitura de Ipojuca, município de Pernambuco com o litoral mais extenso (33 quilômetros), mas é justamente a parte mais frequentada de Porto a mais castigada. Os estragos podem decorrer não só das visitas, mas do desconhecimento da importância dos arrecifes. Em consulta com os turistas, 42% disseram desconhecer as leis que proíbem captura de peixes em recifes, 32% não entendiam os limites das boias e cordões de isolamento das piscinas naturais, e 17% não sabiam que é vetada a extração e manuseio de organismos marinhos.
 
 
Nas proximidades dos recifes de Porto há ainda intensa atividade de mergulho. Os pesquisadores citam pelo menos dez problemas provocados pelas jangadas e mergulhadores sobre os recifes, entre eles a quebra de corais por nadadeiras; morte de corais pelo excesso de sedimentos em suspensão; ausência de biodiversidade marinha; e quebra do substrato recifal pela manipulação de turistas e visitantes. Eles também observam vidros e metais depositados no fundo do mar e perdas provocadas por objetos ou lascas de madeira das embarcações. A própria movimentação de jangadas também pode trazer prejuízos: o ato de remar com a bulima (acessório de madeira para movimentar a jangada) danifica os recifes.
 
 
Área tem grande poder de renovação
 
A exploração turística de Porto de Galinhas e a visitação de seus recifes já é a principal preocupação da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Ipojuca. Um relatório interno da pasta indica que 37% das fiscalizações ambientais ocorrem naquela praia. Destas, 31% referem-se aos passeios de jangada, bugres e mergulhos, e 23% a desmatamentos e poluição sonora.
Entre as medidas sugeridas pelos pesquisadores e que vêm sendo postas em prática está a proibição da venda de passeios na areia por pessoas não habilitadas. Os programas só devem ser contratados na sede de empresas de turismo ou em quiosques distribuídos na própria praia. Também não são permitidos mergulhos na localidade conhecida como Boca da Barra, e os mergulhadores devem ser orientados para que não manuseiem os organismos marinhos. Eles devem ser acompanhados por profissionais habilitados que ajam, também, como educadores ambientais.
 
 
A pesquisadora Visnu da Cunha Sarmento, da UFPE, sugeriu caminhos permanentes ou áreas de rodízio nos ambientes recifais. Embora os corais levem de 100 a 200 anos para se recuperarem de danos por completo, a fauna (microcrustáceos) por ela estudada mostrou um grande poder de renovação.
"Não chegamos a avaliar a consequência da redução na quantidade desses animais em toda a cadeia alimentar. Mas em outro experimento, acompanhamos por três dias uma área aberta à visitação e depois, por três meses, observamos a mesma área, porém com acesso restrito. Nestes 90 dias, observamos recuperação nas algas e na fauna investigada. Isso demonstra a sua vulnerabilidade, mas também a grande capacidade de recuperação", afirma.
 
 
Ipojuca também aprovou recentemente um Código Municipal de Meio Ambiente. Com ele, vai ficar mais fácil impor a disciplina e o respeito ao ambiente dos recifes de corais por turistas e operadoras. Na orla, a prefeitura colocou estandes com filmes curtos ensinando os visitantes a importância dos manguezais e dos corais para a sustentabilidade da praia mais famosa do estado. Alguns visitantes estrangeiros desembarcam no Aeroporto dos Guararapes e vão direto para Porto de Galinhas, retornando aos seus países de origem sem sequer visitar Olinda ou Recife.

 

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